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Ao pai.

maio 21, 2012

Essas ruas são minhas

eles é que andam ariscos

eles que tem o que esconder

eu sou todo livre

meu corpo despido não guarda nada

não pesa um fio

eu não tenho

mal tenho essa carne

eu não temo.

Eles piscam a cada esquina

redobram o risco na falta de língua e ginga

não é deles essa terra

mas sou eu o estrangeiro

Nessa cidade fudida é por eles que olham

Me espiam e num vacilo trinta balas calam o absurdo que tenho sido.

Deus, talvez, quem me deu esse absurdo

porco deus a desgraçar quem já é tão pouco, distribuindo riqueza e ganância

mas deus me deu esse absurdo e minha carne e minha cor

riqueza de enlouquecer os homens rígidos

deus me deu esse absurdo de sentir na sola do pé o desregular do Pelourinho

então não me aguento o riso, esse deboche visto a desgraça, o riso

é faca afiada pra penetrar no ridículo deles

armados em câmeras e curiosidades datadas de séculos atrás

O Mundo Novo é aqui.

O gozo de meu pé neste ardido

O sal de minha pele rasgada por esses trópicos

Meu corpo entregue à toda hostilidade, mas também ao mar

Minha raiva primitiva

esse é o Mundo Novo.

Convulsiva vida que vocês ainda buscam atrofiados nas solas civilizadas

Aqui não há tédio, entretenimento, comida congelada

Aqui só há fome

Aqui em mim o limite da tua farsa

Aqui o resto

Aqui não cabe tua moral e bem estar

Essa terra é minha

Por isso sintam medo e não pena da miséria

Mesmo quando cedo à humilhação de me curvar ao dinheiro mofado de vocês

Mesmo quando meu pé estiver calçado

Mesmo quando eu romper esse destino e revirar a condição

Mesmo quando eu me surpreender homem feito todo rompido de feridas mas feito

Mesmo quando estiver aparado ao valor de vocês; casa, carro, trabalho e bolor

Mesmo quando parecer apagado esse menino

Ainda temam

No âmago do meu olho há um ódio

Torne meu corpo dócil, corte meu coração rebelado, normatize minha língua até perder o fôlego

 

O árido eu carrego

O árido eu carrego

O árido eu carrego

 

Essa terra desgraçada não é minha

estrangeiros

essa terra sou eu. 

nunca sei quando passei dos limites:

maio 7, 2012

Falam em mim os desejos arqueológicos. Suas vozes tecem uma veia única em que pulsa o movimento sem cura. E eu posso ser a imprecisão de uma pincelada ou a ferocidade de um bombardeio. Me estão eu todos os atos pressionados do percurso. Abrir um livro é receber uma fatia de eu perdida. E enquanto a carne dos meus desejos se encontra viva e desfolhada tenho que escolher. abertura incessante de eu. O desassossego me desmonta em gestos potentes, particularidade radical e inútil. O braço estendido, as mil folhas rasuradas. nada tem fim em meu ser, mas sou instrumento do fôlego que me antecede e supera. Moro nos outros para viver, às vezes lembro da sobrevivência. A rotina é paralisia dos trânsitos. Mas quando se desencrava o ir em plena Paulista se faz imperativa a visão dos fluxos indispostos na mesma veia. Sou melhor quando atropelada de falas. Mas também devo minha contribuição. Devo expurgar meu resto e desatualizar a coreografia. Através do outro eu me salto, tempo intergaláctico de incompreensão. pelo som que sinto, adivinho, que falo. 

O amor, esse contato*

março 23, 2012

Ele era outro. E o que tornava a vida impossível é que ele ainda existia; como se feita a brecha pudesse se instalar e enveredar infinitamente. O consolo era a casa com cheiro de lavanda. O consolo é que era uma mulher. Poderia se arrepiar em noite inteira. Dar gelo à lua. Espatifar-se na birra mais antiga de pedir apenas por pedir. E irritar-se, obviamente, com a mãe. Toda a loucura e ridículo tomariam seu corpo. Ainda era enfim uma mulher. E voltaria à casa, ao silêncio. Retornava à solidão que é marca de humilhação e único berço acolhedor – todos teriam farpas, principalmente ele (sofria a possibilidade de algumas dores serem o melhor que se tem). Ele ainda estaria fantasma que ronda e arde, um redemoinho que a cerca, que incha o estômago com tudo o que vê. Os dias bonitos agravando a natureza e ela, mais selvagens, mais difíceis de vivenciar. Ainda acordaria com a agressão de não poder não se esquivar deste ele que existia – mar de mármore em meio as suas cidades fracas. E ele era e seria pra sempre outro nos bares, corredores, papos médios de espera – porque a vida seria quase toda de espera, momentinhos com gosto de água quente e adoçada (o que não é doce). E todo o rebento de instantes que foram, todas as transmutações que encararam porque não se tinha pavor de ser, apenas um desconforto, um constrangimento, porque só poderiam ter sido naquele tempo. E ela quem anda humilhada, tecendo tetos que sempre teriam rombos. Ele sorria, oferecia o cigarro, se adulterava levemente.

Por que começar no fim? Porque só no fim é que se viu mulher, e isso era mais grave do que ser adulta. Porque recuperar sua casa, corpo, dia… era de um ser furtada para sempre. E porque no meio dela tinha um olho alheio que era impossível de se fechar.

* Esse é o trecho de um conto chamado Do Fim, assim mesmo sem nenhuma criatividade. “O amor, esse contato” é um dos subtítulos de um livro sobre ele de sempre, Cortázar.

Loreliana*

março 18, 2012

Se agarrar a lança de qualquer forma. Torná-la sua carne. E apontar a covardia de todos os outros, felizes, sem encarar essa ferida. Reclusa por escolha própria. Mentira, ciente da distinção que a torna ridícula nos olhos deles, os sem ferida, resguarda-se para poupar o choque e assume pedestal de heróica vítima. O que a moveu por tanto tempo era o medo. Sabia que poderiam ir além, que poderiam lhe rasgar inteira. Reverteu o medo em nojinho, era superior àquela gente. Melancólica e profunda teria uma vida à parte. Carnaval de janelas fechadas. Amantes que a conduzem suave medussa de corpo dócil e cabeça alheia, entretetida com suas próprias bestas. Não permitiu que olhassem na retina. Escolhia criteriosamente os mais covardes e menininhos. Entre eles, não contava que apareceria um não corajoso, mas psicótico o suficiente para a encarar. Mitologia às avessas, ela decifrou-se e  dissolveu-se. Mas se ele devastou seus olhos de besta, foi incapaz de aproximar-se da ferida. Bad vibes não é com ele. Aí sim veio o deserto. Sem o recalque-pulpito, as rochas que tornarem-se pura areia, restou um nada e a lança. Das positividades da erosão, sacou seu medo-fulga. Era incapaz de acender até o próprio cigarro. Agora pretendia experimentar. caminhos e não apenas pedestais-redomas-de-vidros ou pior ainda, cabeças no forno. Caminhos, e explanou a ferida como quem mostra os seios dos vinte anos, orgulhosa. Vem se debatendo por aí, às vezes encontra, às vezes regride – as bestas mesmo trituradas existem. Mas vai com a lança e sem Ulisses.

*Cortázar no Jogo da Amarelinha tem seu Morelliana, eu tenho o meu Loreliana de Lóri de Clarice, da minha Lóri também que eu recriei. Mas isso não importa.

Ando larga pela rua

fevereiro 21, 2012

 

mas irresistível delinear o alvo

minha seta atenta dispara dispersa

simpática ao desacordo

espalha-me mulher coxas batons

 

enquanto larga engulo todo o contagio

remôo o infinito

porém vence-me a seta

solto anedotas, conquisto episódios

insistente, tento transver fome em flor

 

volto intacta

imune a teu toque

não frustro a intenção

e no entanto, rasgo-me

revolta

por querer na pele a apresentação do Sonho.

 

exijo Encanto

neste arranjo piedosamente humano

e o arranco

horrorizada com a heresia.

 

Ando larga pela rua

goles vastos

sou só no instante,

invasão ao inesgotável

via única

 

e pegam-me pelo braço, chamam o nome

catam o que espalho s

em sentir o escudo

- malhas suaves

mas difícil decifrar a costura, exercício de retina.

 

Ando larga

na rua estadia

arquiteto cordilheiras

por vezes delicio-me, outras percebo-me seca

 

deslumbro esquinas

inspiro o alvo

feito meia-lua

desapercebida e à espreita.

De tornar-se biruta.

dezembro 9, 2011

[...] ser biruta não é nenhuma saída, mas uma chegada.”

Cortázar, sempre eles.

Ele descamava a cada maço um traço insistente de pele e puxava as cobertas de qualquer novo desconhecido. Ela desprezava por última opção enquanto soletrava os corpinhos magros que já tinha inspecionado. Passavam-se os dias neste manso. Às vezes vinha um pôr-do-sol mais laranja ou entidades cinematográficas para implodir o mesmo, então corriam estabanados num rock 00. Gostaria aqui de um Era Uma Vez que ordenasse em início, meio e fim, mas aconteceu no já, só resta ir embolado até acertar o passo – um dia chega. Ela carregava nos sonhos e pra acordar era um peso, ressaca onírica, tanta imaginação entupia os dias e a sede não dava trégua para o deleite. Ia com suas paranoias, unhas fracas e desilusões amorosas, reclamações e planos mil, nunca estava. Ele amanhecia num salto, recebia o dia já feliz porque cheio de fome. Não carregava nada e vomitava toda a confusão nos outros, então era uma agitação em cadeia: se perdia de si mesmo, dava um gosto que lhe fazia bater palmas e com susto se sentia, então, se abraçava alegre e vertiginoso. O dia que viu o poro dele aberto não resistiu e adentrou com suas tralhinhas. Foi uma temporada esfoliante. Ele feito moleque de 5 anos desfolhava o chão, ela em teimosia aprendeu a fazer mosaicos com os caquinhos até que ficaram tão grãos de nada que percebeu o ter sido que é o pó e saiu correndo. Quando tentou pular fora, não identificou o fim e o início. Procurava sair quando já estava fora. Enfim se tocou que não tinha pele. Soube que estava, não fugiu, mas buscou – o que é uma fuga em disfarce . Ainda queria como querem os que são concisamente e delineados – era muito resistente pelo gosto de ser ela -, tentou novas formas de casas, arquitetou tetos de manjericão e salas de estar com mares de centro (como os que querem revoluções sem perder o termo-próprio). Toda noite sua laje caía e a epiderme reconstruída abria seus meandros – sofria da dilatação dos poros, não havia homem de bem ou outro adstringente que desse jeito. Um dia observou o movimento do ser ele, quase o mesmo que capturar o fogo. Largou a idéia, descarregou os ombros e as planilhas, foi todo o instante e agora ria do inútil de ter uma casa. Não viveram felizes para sempre, viveram.

dezembro 5, 2011

Sextas de fôlego

e fim de solidão consentida

caímos todos

por falta e excesso de amor.

 

Baratos no disfarce dos clichês.

por dentro do teu cinismo

revela todo o tato acolchoado

e eu não vou me dizer ou explorar a busca

me atenho ao segundo plano.

 

Mas aceito a câimbra

não me movo

pra receber tua mão cega

 

Me ame como um sonâmbulo.

eu já não exijo tanto

encoste apenas a superfície

e vá sem aceno

 

uma recordação pra um domingo à tarde

um ponto fixo pra orientar o retorno ao tombo da próxima sexta…

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