Ao pai.
Essas ruas são minhas
eles é que andam ariscos
eles que tem o que esconder
eu sou todo livre
meu corpo despido não guarda nada
não pesa um fio
eu não tenho
mal tenho essa carne
eu não temo.
Eles piscam a cada esquina
redobram o risco na falta de língua e ginga
não é deles essa terra
mas sou eu o estrangeiro
Nessa cidade fudida é por eles que olham
Me espiam e num vacilo trinta balas calam o absurdo que tenho sido.
Deus, talvez, quem me deu esse absurdo
porco deus a desgraçar quem já é tão pouco, distribuindo riqueza e ganância
mas deus me deu esse absurdo e minha carne e minha cor
riqueza de enlouquecer os homens rígidos
deus me deu esse absurdo de sentir na sola do pé o desregular do Pelourinho
então não me aguento o riso, esse deboche visto a desgraça, o riso
é faca afiada pra penetrar no ridículo deles
armados em câmeras e curiosidades datadas de séculos atrás
O Mundo Novo é aqui.
O gozo de meu pé neste ardido
O sal de minha pele rasgada por esses trópicos
Meu corpo entregue à toda hostilidade, mas também ao mar
Minha raiva primitiva
esse é o Mundo Novo.
Convulsiva vida que vocês ainda buscam atrofiados nas solas civilizadas
Aqui não há tédio, entretenimento, comida congelada
Aqui só há fome
Aqui em mim o limite da tua farsa
Aqui o resto
Aqui não cabe tua moral e bem estar
Essa terra é minha
Por isso sintam medo e não pena da miséria
Mesmo quando cedo à humilhação de me curvar ao dinheiro mofado de vocês
Mesmo quando meu pé estiver calçado
Mesmo quando eu romper esse destino e revirar a condição
Mesmo quando eu me surpreender homem feito todo rompido de feridas mas feito
Mesmo quando estiver aparado ao valor de vocês; casa, carro, trabalho e bolor
Mesmo quando parecer apagado esse menino
Ainda temam
No âmago do meu olho há um ódio
Torne meu corpo dócil, corte meu coração rebelado, normatize minha língua até perder o fôlego
O árido eu carrego
O árido eu carrego
O árido eu carrego
Essa terra desgraçada não é minha
estrangeiros
essa terra sou eu.
nunca sei quando passei dos limites:
Falam em mim os desejos arqueológicos. Suas vozes tecem uma veia única em que pulsa o movimento sem cura. E eu posso ser a imprecisão de uma pincelada ou a ferocidade de um bombardeio. Me estão eu todos os atos pressionados do percurso. Abrir um livro é receber uma fatia de eu perdida. E enquanto a carne dos meus desejos se encontra viva e desfolhada tenho que escolher. abertura incessante de eu. O desassossego me desmonta em gestos potentes, particularidade radical e inútil. O braço estendido, as mil folhas rasuradas. nada tem fim em meu ser, mas sou instrumento do fôlego que me antecede e supera. Moro nos outros para viver, às vezes lembro da sobrevivência. A rotina é paralisia dos trânsitos. Mas quando se desencrava o ir em plena Paulista se faz imperativa a visão dos fluxos indispostos na mesma veia. Sou melhor quando atropelada de falas. Mas também devo minha contribuição. Devo expurgar meu resto e desatualizar a coreografia. Através do outro eu me salto, tempo intergaláctico de incompreensão. pelo som que sinto, adivinho, que falo.
O amor, esse contato*
Ele era outro. E o que tornava a vida impossível é que ele ainda existia; como se feita a brecha pudesse se instalar e enveredar infinitamente. O consolo era a casa com cheiro de lavanda. O consolo é que era uma mulher. Poderia se arrepiar em noite inteira. Dar gelo à lua. Espatifar-se na birra mais antiga de pedir apenas por pedir. E irritar-se, obviamente, com a mãe. Toda a loucura e ridículo tomariam seu corpo. Ainda era enfim uma mulher. E voltaria à casa, ao silêncio. Retornava à solidão que é marca de humilhação e único berço acolhedor – todos teriam farpas, principalmente ele (sofria a possibilidade de algumas dores serem o melhor que se tem). Ele ainda estaria fantasma que ronda e arde, um redemoinho que a cerca, que incha o estômago com tudo o que vê. Os dias bonitos agravando a natureza e ela, mais selvagens, mais difíceis de vivenciar. Ainda acordaria com a agressão de não poder não se esquivar deste ele que existia – mar de mármore em meio as suas cidades fracas. E ele era e seria pra sempre outro nos bares, corredores, papos médios de espera – porque a vida seria quase toda de espera, momentinhos com gosto de água quente e adoçada (o que não é doce). E todo o rebento de instantes que foram, todas as transmutações que encararam porque não se tinha pavor de ser, apenas um desconforto, um constrangimento, porque só poderiam ter sido naquele tempo. E ela quem anda humilhada, tecendo tetos que sempre teriam rombos. Ele sorria, oferecia o cigarro, se adulterava levemente.
Por que começar no fim? Porque só no fim é que se viu mulher, e isso era mais grave do que ser adulta. Porque recuperar sua casa, corpo, dia… era de um ser furtada para sempre. E porque no meio dela tinha um olho alheio que era impossível de se fechar.
* Esse é o trecho de um conto chamado Do Fim, assim mesmo sem nenhuma criatividade. “O amor, esse contato” é um dos subtítulos de um livro sobre ele de sempre, Cortázar.
Loreliana*
Se agarrar a lança de qualquer forma. Torná-la sua carne. E apontar a covardia de todos os outros, felizes, sem encarar essa ferida. Reclusa por escolha própria. Mentira, ciente da distinção que a torna ridícula nos olhos deles, os sem ferida, resguarda-se para poupar o choque e assume pedestal de heróica vítima. O que a moveu por tanto tempo era o medo. Sabia que poderiam ir além, que poderiam lhe rasgar inteira. Reverteu o medo em nojinho, era superior àquela gente. Melancólica e profunda teria uma vida à parte. Carnaval de janelas fechadas. Amantes que a conduzem suave medussa de corpo dócil e cabeça alheia, entretetida com suas próprias bestas. Não permitiu que olhassem na retina. Escolhia criteriosamente os mais covardes e menininhos. Entre eles, não contava que apareceria um não corajoso, mas psicótico o suficiente para a encarar. Mitologia às avessas, ela decifrou-se e dissolveu-se. Mas se ele devastou seus olhos de besta, foi incapaz de aproximar-se da ferida. Bad vibes não é com ele. Aí sim veio o deserto. Sem o recalque-pulpito, as rochas que tornarem-se pura areia, restou um nada e a lança. Das positividades da erosão, sacou seu medo-fulga. Era incapaz de acender até o próprio cigarro. Agora pretendia experimentar. caminhos e não apenas pedestais-redomas-de-vidros ou pior ainda, cabeças no forno. Caminhos, e explanou a ferida como quem mostra os seios dos vinte anos, orgulhosa. Vem se debatendo por aí, às vezes encontra, às vezes regride – as bestas mesmo trituradas existem. Mas vai com a lança e sem Ulisses.
*Cortázar no Jogo da Amarelinha tem seu Morelliana, eu tenho o meu Loreliana de Lóri de Clarice, da minha Lóri também que eu recriei. Mas isso não importa.
Ando larga pela rua
mas irresistível delinear o alvo
minha seta atenta dispara dispersa
simpática ao desacordo
espalha-me mulher coxas batons
enquanto larga engulo todo o contagio
remôo o infinito
porém vence-me a seta
solto anedotas, conquisto episódios
insistente, tento transver fome em flor
volto intacta
imune a teu toque
não frustro a intenção
e no entanto, rasgo-me
revolta
por querer na pele a apresentação do Sonho.
exijo Encanto
neste arranjo piedosamente humano
e o arranco
horrorizada com a heresia.
Ando larga pela rua
goles vastos
sou só no instante,
invasão ao inesgotável
via única
e pegam-me pelo braço, chamam o nome
catam o que espalho s
em sentir o escudo
- malhas suaves
mas difícil decifrar a costura, exercício de retina.
Ando larga
na rua estadia
arquiteto cordilheiras
por vezes delicio-me, outras percebo-me seca
deslumbro esquinas
inspiro o alvo
feito meia-lua
desapercebida e à espreita.
De tornar-se biruta.
[...] ser biruta não é nenhuma saída, mas uma chegada.”
Cortázar, sempre eles.
Ele descamava a cada maço um traço insistente de pele e puxava as cobertas de qualquer novo desconhecido. Ela desprezava por última opção enquanto soletrava os corpinhos magros que já tinha inspecionado. Passavam-se os dias neste manso. Às vezes vinha um pôr-do-sol mais laranja ou entidades cinematográficas para implodir o mesmo, então corriam estabanados num rock 00. Gostaria aqui de um Era Uma Vez que ordenasse em início, meio e fim, mas aconteceu no já, só resta ir embolado até acertar o passo – um dia chega. Ela carregava nos sonhos e pra acordar era um peso, ressaca onírica, tanta imaginação entupia os dias e a sede não dava trégua para o deleite. Ia com suas paranoias, unhas fracas e desilusões amorosas, reclamações e planos mil, nunca estava. Ele amanhecia num salto, recebia o dia já feliz porque cheio de fome. Não carregava nada e vomitava toda a confusão nos outros, então era uma agitação em cadeia: se perdia de si mesmo, dava um gosto que lhe fazia bater palmas e com susto se sentia, então, se abraçava alegre e vertiginoso. O dia que viu o poro dele aberto não resistiu e adentrou com suas tralhinhas. Foi uma temporada esfoliante. Ele feito moleque de 5 anos desfolhava o chão, ela em teimosia aprendeu a fazer mosaicos com os caquinhos até que ficaram tão grãos de nada que percebeu o ter sido que é o pó e saiu correndo. Quando tentou pular fora, não identificou o fim e o início. Procurava sair quando já estava fora. Enfim se tocou que não tinha pele. Soube que estava, não fugiu, mas buscou – o que é uma fuga em disfarce . Ainda queria como querem os que são concisamente e delineados – era muito resistente pelo gosto de ser ela -, tentou novas formas de casas, arquitetou tetos de manjericão e salas de estar com mares de centro (como os que querem revoluções sem perder o termo-próprio). Toda noite sua laje caía e a epiderme reconstruída abria seus meandros – sofria da dilatação dos poros, não havia homem de bem ou outro adstringente que desse jeito. Um dia observou o movimento do ser ele, quase o mesmo que capturar o fogo. Largou a idéia, descarregou os ombros e as planilhas, foi todo o instante e agora ria do inútil de ter uma casa. Não viveram felizes para sempre, viveram.
Sextas de fôlego
e fim de solidão consentida
caímos todos
por falta e excesso de amor.
Baratos no disfarce dos clichês.
por dentro do teu cinismo
revela todo o tato acolchoado
e eu não vou me dizer ou explorar a busca
me atenho ao segundo plano.
Mas aceito a câimbra
não me movo
pra receber tua mão cega
Me ame como um sonâmbulo.
eu já não exijo tanto
encoste apenas a superfície
e vá sem aceno
uma recordação pra um domingo à tarde
um ponto fixo pra orientar o retorno ao tombo da próxima sexta…